Desigualdade na contracepção persiste: mulheres fazem 2,5 vezes mais esterilizações que homens

Levantamento do Instituto de Planejamento Familiar mostra que a participação masculina nos procedimentos de esterilização ainda é muito menor no Brasil

Por SONIA DINIZ
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Quatro anos depois de uma mudança importante na legislação brasileira sobre planejamento familiar, a contracepção ainda recai majoritariamente sobre as mulheres. Dados do Observatório do Planejamento Familiar mostram que, em 2025, foram registrados 118,2 procedimentos de esterilização feminina para cada 100 mil habitantes com 15 anos ou mais, considerando laqueaduras realizadas no parto e por outros meios. No caso da esterilização masculina, feita por vasectomia, foram 45,5 procedimentos por 100 mil habitantes.
Na prática, a taxa de esterilização feminina foi mais de duas vezes e meia superior à masculina. A Lei nº 14.443/2022, que atualizou as regras para a esterilização voluntária, retirou a exigência de autorização do cônjuge para a realização de laqueadura ou vasectomia, reduziu a idade mínima e permitiu a realização da laqueadura durante o parto. A mudança ampliou a autonomia para decisões reprodutivas, mas não eliminou outras barreiras que influenciam o acesso ao planejamento familiar. “A contracepção não deve ser vista como uma responsabilidade exclusivamente feminina. Homens e mulheres precisam ter acesso à informação e às diferentes opções disponíveis para que possam participar das decisões sobre sua vida reprodutiva”, afirma a advogada Ana Clara Carvalho, cofundadora do Instituto Planejamento Familiar (IPFAM).
Desigualdade regional também aparece nos números

Os dados do Observatório do Planejamento Familiar, que reúne informações de diferentes bases públicas, mostram ainda uma grande diferença entre os Estados brasileiros.
Na esterilização feminina, o Tocantins apresenta a maior taxa, com 164,3 procedimentos por 100 mil habitantes. No outro extremo está o Rio Grande do Sul, com 47,97. A média nacional é de 95,23 procedimentos por 100 mil habitantes.
Entre os homens, Santa Catarina registra a maior taxa, com 79,49 vasectomias por 100 mil habitantes. O Estado é seguido por Paraná, São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais. Roraima apresenta o menor indicador, com apenas 1,22 procedimento por 100 mil habitantes. A média ponderada nacional é de 36,65.
A diferença também acompanha a disponibilidade de profissionais. Em 2025, Santa Catarina contava com 68 urologistas no Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto Roraima tinha quatro.
“Informação é essencial, mas não resolve todos os problemas. É necessário que haja insumos e profissionais de saúde em todo o território nacional, de forma a garantir que o direito humano de planejar a família seja assegurado a todos”, destaca Lilian Leandro, cofundadora do IPFAM.
Laqueaduras ainda superam vasectomias
A diferença entre os procedimentos também aparece quando se observa o número absoluto de intervenções. Todos os meses, cerca de 196 mil crianças nascem no país, enquanto são realizadas aproximadamente 15 mil laqueaduras no parto. Isso significa que o procedimento está presente em cerca de 7,7% dos partos acompanhados de laqueadura.
O número de laqueaduras realizadas no parto é mais que o dobro do de vasectomias, embora a esterilização masculina seja, em geral, um procedimento mais simples.
Para o IPFAM, ampliar a participação dos homens no planejamento familiar passa também por mudar a forma como a contracepção é discutida. A responsabilidade pela prevenção de uma gravidez não planejada não deveria estar concentrada em apenas um dos lados da relação.  

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FONTE: https://iplanejamentofamiliar.org/