Como a IA e as redes sociais mudaram as eleições para sempre

Por: Guilherme França, consultor em tecnologia

Por PATRICK BRYAN FERREIRA NASCIMENTO BACKSTAGE ASSESSORIA
6 Min

Guilherme França - divulgação

Eu costumo dizer que a eleição já não acontece apenas nas ruas, nos debates, no rádio ou na televisão. Ela também acontece na tela do celular. E, nos últimos anos, passei a observar uma transformação ainda maior: a chegada da inteligência artificial ao ambiente político. As redes sociais mudaram a maneira como candidatos conversam com eleitores, como informações circulam e até como as pessoas descobrem os assuntos que pautam o debate político. Agora, a inteligência artificial ampliou essa transformação ao permitir que imagens, vídeos, vozes e textos sejam produzidos ou modificados em poucos segundos. Nas eleições de 2026, já vemos isso acontecendo de forma concreta. Um levantamento do projeto VigIA, realizado pela Agência Lupa em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, identificou 920 conteúdos com uso de inteligência artificial entre 16 de agosto e 28 de setembro. Desses, 554 eram deepfakes, representando cerca de 60% dos conteúdos analisados. Apenas aproximadamente 40% das publicações estavam devidamente identificadas como produzidas com IA. Na minha avaliação, a principal mudança não está apenas na capacidade de criar conteúdo, mas na velocidade com que ele pode ser produzido e distribuído. A inteligência artificial reduziu drasticamente o custo e o tempo necessários para produzir um conteúdo que parece real. Antes, criar um vídeo manipulado com aparência profissional exigia conhecimento técnico, equipamentos e tempo. Hoje, determinadas ferramentas permitem fazer isso em poucos minutos. O impacto disso nas eleições é enorme porque uma informação pode circular antes mesmo que alguém consiga verificar se ela é verdadeira. Também vejo uma mudança importante no comportamento do eleitor. Nas redes sociais, uma informação não precisa necessariamente ser verdadeira para alcançar milhares ou milhões de pessoas. Ela precisa chamar atenção, gerar identificação ou provocar alguma reação. O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) chama atenção justamente para essa transformação provocada pela arquitetura das plataformas digitais, pelos sistemas de recomendação, pelo perfilamento e pelo chamado microdirecionamento. A inteligência artificial generativa e as deepfakes acrescentam uma nova camada de complexidade a esse cenário. Na prática, percebo que o eleitor passou a receber uma comunicação política cada vez mais personalizada. Os algoritmos aprendem quais assuntos despertam a atenção de cada pessoa e ajudam a entregar conteúdos semelhantes. Isso pode facilitar o acesso à informação, mas também pode fazer com que cada indivíduo tenha contato com uma realidade política diferente, construída a partir daquilo que mais gera engajamento. Outro fenômeno que considero importante é a migração da disputa política para ambientes cada vez mais fechados. Aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, ganharam espaço na circulação de informações políticas e dificultam ainda mais o trabalho de checagem, porque conteúdos podem ser compartilhados rapidamente em grupos e conversas privadas. É justamente aí que vejo um dos maiores desafios da era digital: como distinguir uma informação legítima de um conteúdo fabricado para parecer verdadeiro? Não acredito, porém, que toda utilização de inteligência artificial seja negativa. A tecnologia também pode ser utilizada para melhorar a comunicação, ampliar a acessibilidade, produzir materiais educativos e aproximar candidatos e eleitores. O problema surge quando a ferramenta é utilizada deliberadamente para enganar. Por isso, considero fundamental que o cidadão consiga identificar quando está diante de um conteúdo artificialmente produzido ou manipulado. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026. Entre elas está a necessidade de identificação de conteúdos produzidos ou modificados por IA e restrições para materiais sintéticos envolvendo imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas. Para mim, a tecnologia não é o problema por si só. O problema aparece quando ela é utilizada para enganar deliberadamente. O eleitor precisa ter condições de saber se está vendo uma declaração real, uma montagem, uma sátira ou um conteúdo completamente criado por inteligência artificial. As eleições, portanto, não estão simplesmente ficando mais digitais. Elas estão mudando de natureza. A televisão continua importante. O rádio continua importante. Os debates presenciais continuam importantes. Mas agora existe uma camada entre o candidato e o eleitor que não podemos ignorar: os algoritmos que selecionam o que aparece na tela, os dados utilizados para definir públicos e as ferramentas de inteligência artificial capazes de fabricar conteúdos cada vez mais convincentes. Na minha visão, essa talvez seja a maior mudança de todas. O eleitor não precisa mais perguntar apenas “quem disse isso?”. Ele também precisa perguntar: “isso realmente aconteceu?” Nas eleições do futuro, acredito que alfabetização digital e pensamento crítico serão cada vez mais importantes. Acompanhar propostas, debates e programas de governo continuará sendo fundamental, mas será igualmente necessário aprender a verificar aquilo que consumimos e compartilhamos na internet. Quando uma tecnologia consegue fabricar uma voz, um rosto e uma cena que nunca existiram, verificar antes de compartilhar deixa de ser apenas uma boa prática na internet. Passa a ser parte fundamental do exercício da cidadania.

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