Você pode chegar aos 60 trabalhando. Mas sabe quais direitos mudam nessa fase?

Com mais pessoas permanecendo no mercado de trabalho depois dos 60, envelhecimento passa a envolver também decisões sobre trabalho, renda, saúde, transporte e cuidados

Por JAíNE MACHADO
7 Min

Márcio Kieller é cientista político e mestre em Sociologia Política

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Mesmo depois dos 70 anos, milhares de brasileiros continuam trabalhando. Já são 8,7 milhões de pessoas com 60 anos ou mais ativas no mercado de trabalho no Brasil, segundo levantamento da Nexus com base na PNAD Contínua do IBGE. Em uma década, esse contingente cresceu 53%, passando de 5,7 milhões para 8,7 milhões.

Entre o segundo trimestre de 2022 e o mesmo período de 2026, o número de ocupados com 60 anos ou mais cresceu 28,7%. No grupo de assalariados formais dessa faixa etária, o aumento chegou a 43,7%, de acordo com o Dieese, também com base na PNAD Contínua.

E, para essa parcela da população, a questão não é apenas decidir quando se aposentar, mas descobrir como continuar trabalhando, cuidar da saúde, ajudar a família e manter a autonomia em uma fase da vida que já mudou bastante.

Isso significa que envelhecer e trabalhar estão acontecendo cada vez mais ao mesmo tempo, o que muda também a maneira como a sociedade precisa pensar o cuidado.

“O envelhecimento da população está colocando em xeque uma série de estruturas que foram construídas para outra realidade demográfica. Previdência, saúde, trabalho, mobilidade e assistência social ainda costumam ser pensados de maneira muito segmentada, mas a vida das pessoas não funciona assim. O desafio do poder público é construir respostas que acompanhem essa nova realidade sem transformar o envelhecimento em sinônimo de dependência”, afirma o cientista político e mestre em Sociologia Política pela UFPR, Márcio Kieller.
 

A mudança interessa a quem já passou dos 60, mas também a quem está chegando lá, e há uma série de direitos e serviços que podem fazer diferença no dia a dia.

Uma pessoa com 60 anos ou mais, por exemplo, já é considerada idosa pelo Estatuto da Pessoa Idosa e tem direito a atendimento prioritário. A partir dos 65 anos, há gratuidade no transporte coletivo urbano e semiurbano. Também existe desconto de pelo menos 50% em eventos culturais, esportivos e de lazer.

No transporte entre estados, pessoas com 60 anos ou mais e renda individual de até dois salários mínimos podem solicitar a Carteira da Pessoa Idosa, que garante duas vagas gratuitas por veículo ou, quando essas vagas já estiverem ocupadas, desconto de pelo menos 50% na passagem. A emissão é gratuita e pode ser feita pela internet ou com auxílio do CRAS.

Na saúde, o direito também chega ao atendimento médico. O SUS mantém uma política específica para a população com 60 anos ou mais, com foco em autonomia, independência funcional, prevenção e acompanhamento contínuo. A Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa, atualizada pelo Ministério da Saúde em junho de 2026, permite acompanhar informações de saúde, condições sociais e familiares, hábitos de vida e possíveis situações de vulnerabilidade.

“Conhecer esses direitos é importante, mas não basta que eles existam no papel. A pessoa precisa conseguir chegar ao serviço, entender como acessá-lo e ter condições de continuar participando da vida social. É aqui que o transporte, a renda, a saúde, o trabalho e os espaços de convivência começam a fazer parte da mesma discussão”, diz Kieller.

Para quem tem baixa renda, outro ponto importante é o Benefício de Prestação Continuada, o BPC. O benefício garante um salário mínimo mensal a pessoas com 65 anos ou mais que atendam aos critérios de renda e estejam com o Cadastro Único atualizado. Não é aposentadoria e não exige contribuição anterior ao INSS. O pedido pode ser feito pelo Meu INSS.

Também é possível buscar orientação sobre o Cadastro Único, benefícios ou outros serviços da assistência social no CRAS do município, que funciona como uma das portas de entrada para esse atendimento.

Para Kieller, a forma como cada pessoa chega a esse período da vida também determina o tipo de apoio de que poderá precisar. “Não dá para falar em velhice como se todos chegassem a ela nas mesmas condições. Quem passou a vida em um trabalho pesado ou com renda baixa pode ter necessidades muito diferentes de quem conseguiu preservar a saúde e construir uma rede de apoio. O cuidado também precisa considerar essa desigualdade”, afirma.

Essa diferença também aparece na relação com o trabalho. Para algumas pessoas, continuar trabalhando depois dos 60 anos representa uma escolha ou uma forma de permanecer ativo. Para outras, é uma necessidade para complementar a renda. O tipo de ocupação, o salário e as condições acumuladas ao longo da vida interferem diretamente nessa decisão.

As condições em que esse trabalho acontece também estão longe de ser iguais. No segundo trimestre de 2026, o rendimento médio dos empregados do setor privado com carteira foi de R$ 3.386, enquanto os sem carteira receberam, em média, R$ 2.608. Entre trabalhadores por conta própria, a média chegou a R$ 3.109, e entre empregadores, a R$ 9.148, segundo o Dieese, com base na PNAD Contínua.

A implementação da Política Nacional de Cuidados já começa a produzir iniciativas concretas. Em março de 2026, o governo federal iniciou o projeto-piloto “Cuidado em Casa” em três municípios, integrando ações de saúde e assistência social em Fortaleza (CE), Colombo (PR) e Juazeiro (BA), para testar um modelo de atendimento domiciliar integrado a pessoas idosas e apoio a seus cuidadores familiares.

Em Colombo, a iniciativa ainda está sendo estruturada junto à Secretaria Nacional responsável pela política. A previsão é que as primeiras ações aconteçam nos bairros Guaraituba e Roça Grande. A estimativa inicial é atender cerca de 300 pessoas, incluindo aproximadamente 150 idosos e 150 cuidadores, que podem ser familiares ou responsáveis pelo cuidado diário.

Segundo Kieller, a discussão precisa chegar antes do momento em que uma família já não consegue resolver sozinha uma situação de cuidado.

“Uma política de cuidados precisa funcionar antes da emergência. Se a família só descobre onde buscar ajuda quando alguém já está doente ou sem condições de seguir sozinho, o poder público chegou tarde. Ter informação e serviços acessíveis também é uma forma de prevenção”, conclui.

 


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