Uma realidade vivida na zona rural de Mossoró (RN) levou três estudantes de uma escola pública de educação profissional e tecnológica em tempo integral a desenvolver uma solução tecnológica voltada à agricultura familiar. Criado por Andreilson Lima da Fonseca Filho, Karla Karoline Pereira Bezerra e Ellen Alcântara de Sousa Ferreira, todos de 18 anos e egressos do Centro Estadual de Educação Profissional Professor Francisco de Assis Pedrosa, o pulverizador automático busca reduzir o contato direto de trabalhadores rurais com agrotóxicos durante a aplicação nas lavouras.
A ideia surgiu a partir da experiência de Andreilson, que cresceu convivendo com pequenos agricultores da região. Ao observar relatos frequentes de tontura e dores de cabeça após o uso de pulverizadores costais, ele e as colegas decidiram investigar como a robótica poderia tornar esse processo mais seguro e acessível para produtores que não têm condições de adquirir equipamentos automatizados. Segundo o professor de Física, Tiago Pereira da Cruz, orientador do projeto, pulverizadores automáticos comerciais podem custar entre R$ 50 mil e R$ 1 milhão. O protótipo desenvolvido pelos estudantes teve custo aproximado de R$ 2.500.
Antes de iniciar a construção, o grupo ouviu 20 pequenos agricultores da comunidade do Sítio Pau Branco e de outras áreas rurais do município. O levantamento mostrou que 70% utilizavam agrotóxicos nas plantações, enquanto 93% faziam a aplicação com pulverizadores costais e afirmavam não ter condições financeiras de adquirir equipamentos automáticos.
Com base nesses dados, os estudantes desenvolveram, ao longo de dois anos, três versões do pulverizador utilizando Arduino (plataforma de prototipagem eletrônica), sensores, motores, programação e materiais compatíveis com a realidade da escola. O modelo mais recente possui estrutura reforçada, rodas adaptadas a diferentes tipos de solo, reservatório de quatro litros e sistema de comando remoto, permitindo que o agricultor realize a pulverização à distância.
"O agricultor não teria mais contato direto com o agrotóxico, que era o que causava a maior parte das intoxicações", explica a estudante Ellen sobre o impacto esperado do equipamento.
Da teoria ao aprendizado na prática
A trajetória do pulverizador reflete pilares do Ensino Médio Integral, como o aprendizado na prática, a iniciação científica e o protagonismo juvenil. Durante o desenvolvimento, os estudantes aplicaram conhecimentos de física, robótica, programação, pesquisa científica e análise de dados para solucionar um problema concreto da comunidade, desenvolvendo também competências como autonomia, trabalho em equipe e comunicação.
O protótipo foi testado em laboratório, na horta da escola e em ambientes semelhantes aos de pequenas plantações. Após as primeiras avaliações, os estudantes voltaram a ouvir agricultores da comunidade para aperfeiçoar o equipamento. Entre as melhorias implementadas está o aumento da capacidade do reservatório, apontado pelos produtores como uma necessidade para aproximar o equipamento das condições reais de trabalho.
Para a aluna Karla, o contato com os agricultores e a participação em feiras científicas mostraram o potencial da iniciativa. "A gente percebeu que um protótipo que a gente criou de algo que era só uma ideia poderia mudar a vida de muita gente", afirma.
Segundo Tiago, a escola organiza a formação em tempo integral com forte incentivo à pesquisa aplicada. Os estudantes desenvolvem projetos científicos ao longo do ensino médio e concluem a formação técnica com um Trabalho de Conclusão de Curso. Para ele, esse modelo tem fortalecido a cultura da investigação na escola. "Antes a gente ia atrás dos alunos para que eles desenvolvessem um projeto, e agora são os alunos que procuram os professores com suas ideias e querem desenvolver os seus projetos," reforça o professor.
A experiência também influenciou os projetos de vida dos três estudantes. Karla ingressou no curso de Direito, Ellen cursa Biblioteconomia na Universidade Federal do Ceará e pretende seguir carreira acadêmica, enquanto Andreilson irá cursar Engenharia Mecânica.
Ao longo dos dois anos de desenvolvimento, o pulverizador participou de dez feiras científicas em diferentes estados do país, incluindo a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), realizada na Universidade de São Paulo (USP). O projeto também conquistou credencial para uma mostra internacional em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, mas a participação não foi possível por falta de recursos.
Sobre o Ensino Médio Integral
O Ensino Médio Integral é uma proposta pedagógica multidimensional, moderna, nacional, pública e gratuita. A partir de uma oferta de educação que se conecta à realidade dos jovens e ao desenvolvimento de suas competências cognitivas e socioemocionais, propõe a formação integral dos estudantes. A proposta de ensino está presente em cerca de 6 mil escolas em todo o país, beneficiando mais de 1 milhão de estudantes.
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VANESSA MIRANDA MENEZES
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