Violência contra idosos ocorre, na maioria das vezes, dentro de casa e segue subnotificada

Denúncias registradas pelo Disque 100 apontam familiares entre os principais agressores; jurista explica como identificar e denunciar casos de abuso

Por JOãO PEDRO
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Divulgação

A violência contra a pessoa idosa continua sendo uma realidade silenciosa no Brasil. Embora os registros oficiais mostrem milhares de denúncias todos os anos, especialistas avaliam que boa parte dos casos nunca chega ao conhecimento das autoridades. 
Dados divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) mostram que o Disque 100 registrou 617.837 denúncias de violações de direitos humanos entre janeiro e novembro de 2025. Entre os grupos mais vulneráveis aparecem as pessoas idosas, especialmente aquelas com idade entre 70 e 84 anos. O levantamento também aponta que grande parte dos agressores possui vínculo próximo com a vítima, como familiares e pessoas do convívio cotidiano.
Outro dado chama atenção para a dimensão do problema. Segundo levantamento divulgado pelo Sinteal com base em números do Disque 100, o primeiro trimestre de 2025 registrou cerca de 250 mil denúncias relacionadas a violações de direitos da população idosa, crescimento de 140% em comparação ao mesmo período de 2022.
Para a jurista e coordenadora do Núcleo de Práticas Jurídicas da Afya Unigranrio Nova Iguaçu, Carmen Caroline, os números refletem uma realidade que muitas vezes permanece escondida dentro das próprias residências.
“A violência contra a pessoa idosa nem sempre deixa marcas visíveis. Em muitos casos, ela se manifesta por meio de humilhações constantes, isolamento social, apropriação indevida de recursos financeiros, abandono ou negligência nos cuidados básicos. Por acontecer dentro do ambiente familiar, frequentemente permanece invisível por longos períodos”, afirma.
Segundo ela, a dependência emocional, física ou financeira da vítima em relação ao agressor é um dos principais fatores que dificultam as denúncias.
“Muitos idosos dependem dos próprios familiares para alimentação, transporte, administração de medicamentos ou cuidados diários. Esse contexto faz com que o medo de sofrer retaliações ou de perder o vínculo familiar impeça a busca por ajuda”, explica.
Diversas formas de violência
A violência contra a pessoa idosa pode se manifestar de diferentes maneiras. Entre as formas mais recorrentes estão a violência física, psicológica, patrimonial, financeira, sexual, além de situações de abandono e negligência.
A violência financeira é uma das que mais crescem no país. Ela ocorre quando familiares ou terceiros utilizam aposentadorias, pensões, cartões bancários ou patrimônio do idoso sem consentimento.
“É comum observar situações em que familiares controlam integralmente os recursos da pessoa idosa, realizam empréstimos sem autorização ou utilizam valores destinados ao sustento da vítima para outros fins. Trata-se de uma violação de direitos que pode comprometer a autonomia e a dignidade da pessoa idosa”, destaca Carmen Caroline.
Sinais que merecem atenção
De acordo com a especialista, mudanças repentinas de comportamento podem indicar situações de violência ou abuso. O isolamento social, tristeza constante, medo excessivo de determinados familiares, sinais de desnutrição, falta de higiene, lesões frequentes sem explicação convincente ou movimentações financeiras incomuns são indícios que merecem atenção.
Ela ressalta que vizinhos, profissionais de saúde, amigos e familiares também têm papel importante na identificação desses sinais. “A proteção da pessoa idosa é uma responsabilidade coletiva.”, observa a jurista e coordenadora da Afya Unigranrio.
Como denunciar
Casos suspeitos ou confirmados de violência podem ser denunciados por qualquer pessoa. O principal canal é o Disque 100, serviço gratuito do Governo Federal que funciona 24 horas por dia e garante sigilo ao denunciante.
As denúncias também podem ser registradas em delegacias de polícia, Ministérios Públicos, Conselhos Municipais da Pessoa Idosa e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas).
O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece mecanismos de proteção e prevê punições para diferentes formas de violência. A denúncia é fundamental para interromper o ciclo de abusos e garantir que a vítima receba a assistência necessária.
A jurista destaca que combater a violência contra a pessoa idosa passa também pela conscientização da sociedade.
“O envelhecimento é uma conquista coletiva. Garantir respeito, dignidade e proteção às pessoas idosas é um compromisso que envolve famílias, instituições e toda a sociedade”, conclui.  

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