Crianças burlam barreiras de idade nas redes e até pais ajudam a driblar regras
Pesquisa internacional mostra que 32% dos menores já conseguiram contornar sistemas de verificação; 17% dos pais admitiram participação no processo
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As novas barreiras criadas por redes sociais e plataformas digitais para impedir o acesso de crianças a conteúdos inadequados estão encontrando resistência dentro de casa. Um levantamento da organização britânica Internet Matters revelou que 32% das crianças e adolescentes entrevistados já burlaram sistemas de verificação de idade para acessar plataformas ou conteúdos restritos. Entre os pais, 17% admitiram ter ajudado os filhos nesse processo.
O estudo também mostrou que 46% dos menores consideram as verificações de idade fáceis de superar. Além disso, 49% relataram ter encontrado conteúdos prejudiciais na internet mesmo sem precisar driblar os mecanismos de proteção. Para escapar das restrições, os entrevistados citaram estratégias como informar datas de nascimento falsas, criar perfis fictícios, utilizar documentos de terceiros e até recorrer a artifícios para enganar sistemas de reconhecimento facial.
O avanço desses mecanismos de controle tem sido discutido por governos e empresas de tecnologia em diversos países. No entanto, os números indicam que a tecnologia, sozinha, não tem conseguido impedir o acesso de crianças e adolescentes a ambientes inadequados para a faixa etária.
Para o advogado Leon Fagiani, especialista em tecnologia e associado da Apeti, de Rio Preto, os dados mostram que o desafio vai além de uma ferramenta tecnológica. “A proteção se dá com várias camadas, etapas e cuidados diversos. Um app de verificação de idade poderá ser burlado. Se até aplicativos bancários são fraudados, imagine de outros segmentos” afirma.
Segundo ele, a discussão agora deve se focar ainda mais nas plataformas. “Não se pode considerar que os responsáveis conseguirão acompanhar as alterações tecnológicas na mesma proporção que uma big tech consegue avançar no desenvolvimento de suas tecnologias, ou que o Estado consegue criar ações, programas e fomentar educação continuada. É um desafio coletivo, no qual os nossos representantes devem priorizar a proteção infantil, em detrimento do lucro das companhias.
A especialista em relacionamento escolar Solange Pescaroli, da UMA Educação, avalia que a busca por aceitação entre colegas e grupos de convivência ajuda a explicar esse comportamento.
"Muitas crianças não enxergam essas restrições como uma medida de proteção. Elas veem como uma barreira para participar do que os amigos já estão fazendo. Quando não existe diálogo sobre os motivos dessas limitações, a tendência é procurar formas de contorná-las", explica.
Para ela, o tema exige participação ativa de famílias e escolas. "A educação digital precisa fazer parte da formação das crianças. Não basta entregar um celular ou instalar um bloqueio. É preciso conversar sobre riscos, exposição, privacidade e sobre as consequências que determinadas escolhas podem trazer", afirma.
Os resultados da pesquisa reforçam um cenário que preocupa especialistas em tecnologia e educação: mesmo com sistemas cada vez mais sofisticados de controle, a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital continua dependendo, em grande parte, da orientação e do acompanhamento dos adultos.
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Henrique Fernandes
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