Quem cuida de quem cuida? ONG da periferia de São Paulo oferece rede apoio a mulheres periféricas

ONG PAC, oferece acolhimento a crianças e iniciativas de apoio psicológico e capacitação para mulheres que enfrentam jornadas invisibilizadas de trabalho doméstico e cuidado

Por BIANCA SALES | PITCHCOM COMUNICAçãO
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ONG PAC oferece rede de apoio segura para mulheres com filhos | Foto Divulgação/PAC

A chamada ‘economia do cuidado’, que engloba atividades como cuidar de crianças, idosos, pessoas com deficiência e realizar tarefas domésticas, é fundamental para o funcionamento da sociedade e da economia, mas ainda é subvalorizada e invisibilizada, especialmente quando realizada por mulheres periféricas. Segundo o IBGE, mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao trabalho de cuidado não remunerado, quase o dobro do tempo dedicado pelos homens.
Esse peso é ainda maior para mulheres negras e mães solo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Economia da FGV,14,9% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo, sendo 90% mulheres negras. Dessas famílias, 56% vivem abaixo da linha da pobreza, muitas delas nas periferias, onde a ausência de creches próximas, longos deslocamentos e redes de apoio fragilizadas ampliam a desigualdade e dificultam o acesso ao emprego forma e à formação profissional de mulheres.
É nesse contexto que a ONG PAC (Projeto Amigos da Comunidade- que há mais de 23 anos trabalha com crianças, jovens, adultos e idosos em situação considerada de 'extrema vulnerabilidade social' nas regiões de Pirituba e Jaraguá – atua como uma rede de apoio essencial para mulheres que exercem papel fundamental na economia do cuidado.
Entre os programas oferecidos pela organização está o CCA (Centro para Crianças e Adolescentes), que acolhe cerca de 120 crianças e adolescentes no contraturno escolar. O espaço oferece rede de apoio segura, com alimentação balanceada definida por nutricionistas, além de atividades socioeducativas e pedagógicas, que permitem que mães e cuidadoras possam realizar atividades como trabalhar e estudar com autonomia e tranquilidade.
Além disso, o PAC mantém iniciativas voltadas ao fortalecimento de mulheres, atendendo aproximadamente 900 delas por meio de oficinas gratuitas de capacitação, palestras, rodas de conversa também com apoio psicológico e atendimento social.
Para Rosane Chene, empreendedora social e diretora da ONG, as desigualdades aumentam a sobrecarga das mulheres, e criam entraves para seu desenvolvimento pessoal e profissional: “As periferias são majoritariamente sustentadas por mulheres que acumulam horas de cuidado não remunerado. Sem creches próximas e sem rede de apoio, elas ficam impossibilitadas de trabalhar. O PAC trabalha para oferecer uma rede de apoio a essas mães e mulheres, para que elas possam reconstruir suas trajetórias.”
É o caso de Kelly Aparecida Ferreira, de 38 anos, que encontrou no PAC, em 2016, uma rede de apoio fundamental para reorganizar a vida da sua família. Mãe de quatro filhos, Luiz Eduardo (14), Maria Eduarda (13), Ana Beatriz (10) e Luiz Otávio (10), ela chegou à organização por indicação de uma amiga, em um momento em que precisava conciliar o trabalho com os cuidados das crianças.
Na época, Kelly trabalhava como auxiliar de limpeza em uma creche e enfrentava dificuldades para manter a rotina profissional sem uma rede de apoio familiar. Segundo ela, pagar alguém para cuidar dos filhos era inviável “o meu salário todo iria para isso”. Foi nesse contexto que o PAC passou a acolher as crianças no contraturno escolar por meio do CCA, oferecendo atividades socioeducativas, alimentação e um espaço seguro de convivência.
“Eu precisava trabalhar, mas não tinha com quem deixar meus filhos. Uma amiga me falou do PAC e foi um alívio enorme saber que eles teriam um lugar seguro para ficar, aprender e se desenvolver enquanto eu trabalhava”, conta Kelly.
Ao longo dos anos, o vínculo com a organização foi se fortalecendo. Além de apoiar seus filhos, o PAC também passou a oferecer suporte à própria Kelly, por meio de reuniões, palestras e formações voltadas às famílias atendidas. Segundo ela, essas iniciativas foram decisivas para que começasse a repensar sua própria trajetória profissional.
“O PAC também me incentivou a pensar em mim, a estudar e buscar algo melhor. As palestras e conversas que aconteciam lá foram abrindo minha cabeça para novas possibilidades”, afirma.
Motivada por esse processo, Kelly decidiu iniciar a faculdade de pedagogia, formação que concluiu no final de 2025. Hoje, ela trabalha como professora do Berçário II na mesma creche em que antes atuava na limpeza, uma mudança que simboliza a importância de uma rede de apoio a mulheres.
Para Kelly, a presença do PAC foi determinante para que ela pudesse estudar, trabalhar e cuidar da família ao mesmo tempo. “Se não fosse o PAC, eu provavelmente teria ficado só no trabalho doméstico ou em empregos muito limitados. O projeto me deu apoio para seguir em frente e acreditar que eu podia ir além”, diz.
Atualmente, três de seus filhos seguem participando das atividades do CCA do PAC. Para ela, a organização representa mais do que um serviço de acolhimento é uma “rede de apoio, que eu indico e recomendo a todas as mulheres que precisam”.
“O PAC foi muito importante para a nossa vida, é uma extensão da minha família”, finaliza Kelly.  

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